sábado, 9 de julho de 2011

O último carro

Texto: João das Neves
Elenco: Anderson Galvão, Ângelo Mauriz, Arthur Martinez, Carolina Ferraresi, Cristina Chicon, Dani Spina, Felipe Menezes, Fernanda Peviani, Ingrid Daniele, Nathaly Léo e Rodrigo Freitas.
Orientação: Pedro Alcântara

“Vocês acham que entram e saem desse trem todos os dias, mas vocês não saem”

Foto: Ana Paula Lazari
O transporte público tem sido pauta frequente desde que não encontramos eficiência nesse serviço ou seja: desde sempre.

Como a história de O último carro se passa na estação e no trem, o teatro ficou com toda sua disposição rearranjada: um corredor ao centro com cadeiras virada para ele dispostas parte no palco e na plateia. As cenas desenroladas no espaço do palco eram na estação e na plateia, vagão.

Mal entreguei meu bilhete e já sentei numa cadeira que não podia, tal qual um fingido desavisado que senta-se no assento preferencial reservado aos idosos, gestantes e deficientes. A dita cadeira seria usada na peça como assento do trem. Quando fui avisado do erro pela atriz do elenco, olhei para refletores bem em cima da cadeira, fiz cara de surpreso e busquei outro lugar.

O desenrolar da peça mostra uma fração do que se pode ver diariamente em qualquer trem. Todo o tipo de gente, trabalhadores honestos, senhoras batendo perna, estudantes, casais, mendigos, religiosos, ambulantes, trombadinhas, e etc.

O que acontece nesse trem, no entanto, traz à tona um conflito latente que nos passa despercebido todos os dias. O trem desanda e não há como pará-lo. Diante disso, as reações mais diversas surgem, umas pessoas buscam a soluções para parar o trem, outras salvação em Deus e outras sequer tomam conhecimento do que está se passando ali, ou não se importam.

Um agravante: eu ri, a plateia riu. Em diversos momentos. É o remédio que encontramos para lidar com a tragédia diária. E do mendigo, então? Como rimos! Até o momento em que ator dá um basta, pois ninguém estava ouvindo e  que ele tinha algo pra falar. Engoli seco, culpado.

Mas esse não foi o único momento que a história contada pela turma 46 era interrompida para convidar a platéia para uma reflexão, houve também o uso de projeção de depoimentos de pessoas reais que usam o transporte público e as canções. Dentre elas, Deus lhe pague do Chico Buarque que dispensa comentários.

No fim a peça termina (que bom que no fim algo termina), mas com a estranha sensação de que não terminou, obviamente. Aquela história tinha acabado, mas a realidade é bem mais dura e o nosso trem desandou já desandou faz tempo. E quem é capaz de pará-lo?

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Atormenta aí!