segunda-feira, 6 de junho de 2011

Território Lorca (ou Arritmia parte 2 ou post #101)

Atenção essa é a continuação desse texto aqui. OK?

Apesar de um começo demorado para situar o público por conter muitas informações, afinal são quatro obras de um ator condensadas em uma peça dividida em duas partes; todo o enredo de Arritmia desenvolve-se aproximando cada vez mais o espectador de modo que a parte 1 termina como se tudo escurecesse e um letreiro anunciasse: continua no próximo episódio. E aquela mesma sensação ingrata de acabar na melhor parte, sabe?

O fio condutor de tantas histórias em uma só peça ora eram personagens em momentos de narração e ora eram as lavadeiras que falavam da vida alheia “não porque gostassem de falar, mas é porque aqui se fala” e “aquela que quiser ser respeitada, que faça por onde”. Eram momentos de descontraídos e de humor leve.

Uma das cenas das lavadeiras - Foto: Ana Paula Lazari

Vale comentar que atrizes que representavam Yerma, Belisa, Rosita e a Noiva, compunham o grupo das lavadeiras para falar a respeito da vida e conduta moral dessas personagens, seria uma representação de como a moral funciona fazendo com que julguemos nosso próprios atos? Divagação minha, vai ver o diretor só achou que todas as mulheres do elenco tinham que fazer as lavadeiras por questão de volume e ponto.

Outro elemento de ligação entre todas as histórias é a Lua como personagem personificada. Mesmo com grande número de personagens femininos, passa longe do clichê “mulher de fases”, é uma entidade que possui vontades e é capaz de exercer poder naquelas vidas. Uma força divina que dita o rumo das coisas e ainda assim, tem suas frustrações.

E claro, a velha mendiga rezadeira também cumpre um papel simbólico presente em todas as histórias e essencial por representar a crença obscura. Todos a temem e preferem distância, exceto por Yerma que consegue ver na velha a última esperança para seu sonho de ser mãe se concretizar.

O conjuto da obra parece um teatro influenciado pelo melhor da estética cinematográfica, principalmente na forma de contar história: fragmentada, ganhando sentido gradativamente. Mas posso ter minhas referências erradas, pois é muito possível que esse formato tenha sido transportado primeiramente do teatro para o cinema.

Você acompanha tudo mergulhado num espaço cênico sem palco, ali na mesma sala, na mesma floresta, no mesmo campo, olhando a cena escolhida pelo diretor para ser vista naquele momento. E além disso, o espaço utilizado muito contribuiu para essa impressão cinematográfica, pois a casa de vidro usava tudo o que estava além do vidro em seu favor para as cenas e tudo era real: as luzes da noite, a praça. O espaço cênico ia além daquele espaço, transportando a plateia para aquele mundo tão real e concreto, lembrando o que vemos nos filmes. Se a tela do cinema parece uma janela, o que diremos de uma janela de fato?

Dois climas completmente distintos dominam cada uma das partes. A parte um é dominada pela alegria e a parte dois pela tensão. Já que a primeira contém toda a parte feliz da história, três casamentos e um desfecho em suspense. E a segunda, quatro mortes, um desfecho meio trágico. Pois é, pesado, né?

A música é outro elemento de presença forte que contribuí muito para a criação dessas atmosferas de cada parte. Todas as canções foram interpretadas ao vivo pelo afinadíssimo elenco que merece cumprimentos pelo desempenho de voz. Destaque para a música do Cabrito, minha preferida e mais animada.

Se os atores conseguiram até cantar muito bem, é dispensável tecer qualquer comentario a respeito da interpretação (até porque, quem sou eu pra fazer isso, né?). Ao longo de uma temporada, a equipe de preparação do elenco fica a cargo de fazer apontamentos, comentários e o grupo vai se aprimorando mais ainda. É legal ver a evolução da primeira (que foi ótima) para a última apresentação.

E como eu já disse, é um grupo que tem harmonia coletiva muito forte, e isso fica visível na qualidade do resultado do trabalho deles, arriscaram-se a diversas experimentações que deram certo nesse último trabalho: na escolha do texto, na escolha do espaço, na divisão em duas partes do espetáculo. O mérito é da turma e de todos os profissionais que participaram na trajetória da formação deles.

Enfim, sem dúvida uma peça com atores que já podem sim se profissionalizarem após três anos e meio de muito estudo. Mas antes, precisam entregar o Trabalho de Pesquisa Teatral, nosso TCC, e a pasta de estágio. Vão deixar saudades.

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