terça-feira, 17 de maio de 2011

Voz e Ação: Descobertas

Nosso professor de voz deu início a um trabalho lógico na última semana:: a utilização das ações da cena como origem da voz. Depois de estudarmos partituras vocais, agora, a pesquisa da aula se dá observando como, ao interpretar uma cena, as ações executadas trazem a voz mais adequada.

Realmente, no nosso cotidiano diversos fatores influenciam na nossa voz sem que pensemos nela. Abaixamos nosso tom quando numa biblioteca, cochichamos quando não queremos ser ouvidos, damos inflexões que condizem com o que sentimos. Se estamos indignados, os gestos e a voz mostram, se estamos tristes a voz embarga e etc.

Primeiro foram testadas cenas já marcadas, com atores já com texto decorado e ele ia fazendo alguns apontamentos para reflexão.

Uma das cenas foi do Auto dos 99%, na cena onde Dom Pedro I declara independência do Brasil. Cabe algumas explicações: essa cena é uma sátira na qual um homem chega para Dom Pedro I interrompendo o rei durante um momento de defecação, alertando que as pessoas estão na rua e pedindo que ele faça alguma coisa, já que é sete de setembro, mas ele demora muito a captar o recado.

Nessa cena ele fez apontamentos a respeito de como a voz influencia uma pessoa com dor de barriga, como reagimos vocalmente quando alguém não nos entende por pura estupidez, como ficamos quando somos interrompidos em momentos inoportunos, entre outras coisas. É a partitura vocal do cotidiano.

Na cena dos índios ele apontou como a ambientação da selva, do encontro de índios depois da caçada influencia na voz, falou também do ritual, e de como o peso carregado por eles pediam que a voz mostrasse.

Ele não dizia como tinhamos que falar, apenas situava as circunstâncias da cena e as ações que traziam a voz. As pessoas iam fazendo a cena de acordo com algumas orientações e a cada nova informação acrescentada notava-se a influência na voz.

Depois chegou a minha vez, mas fiz uma cena que nem foi ensaiada ainda, por isso estava com muito receio, mas o professor achou melhor assim.

- Ótimo que a cena não esteja marcada e vocês não saibam o texto. Improvisem.

É uma cena densa, quando Pedro despede-se da mãe na peça Bailei na Curva. Eu fui com toda a insegurança que é possível de existir no mundo. Aqui devido ainda ao fato de não ter estudado o personagem, o que não é decorar texto. Eu estava completamente cru, e me serviu já de estudo inicial fazer aquela cena.

Repetimos umas três vezes e a cada nova instrução, um novo olhar para cena e novas variaçoes de voz. Mas desse momento, os conselhos do professor foram o que mais marcaram, e não só de voz.

Ele observou que empresto minhas reações ao personagem, e devo ter cuidado com isso.

Claro que eu obviamente não fiquei satisfeito com o resultado de nenhuma das vezes que passei e demonstrei meu descontentamento comigo na mesmo hora. E aí o comentário do professor foi daqueles mais certeiros e oportunos. “Qual a graça de se acertar na primeira vez? Teatro é tentativa, experimentações e descobertas, use seu tempo para isso”. Ele disse isso, ou quase isso.

Um comentário:

  1. Fico extremamente agradecido pelo seu post. Infelizmente, no nosso curto período de aula, não há condições desse retorno do trabalho realizado em sala. Acredito que o papel do professor seja estabelecer caminhos para a realização de um trabalho que tem por objetivo o exercício da interpretação. Partindo desse pensamento, é fundamental observar os instrumentos e mecanismos que o ator-aprendiz carrega nesse atuar e a partir dessa observção estabelecer um diálogo que atinja diretamente ao trabalho realizado e ao mesmo tempo sirva de reflexão para a atuação.

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