terça-feira, 24 de maio de 2011

Um Homem é um Homem

Direção: Ana Roxo, Mariana Senne e Thiago Antunes
Texto: Bertold Brecht
Elenco: Alexandre Falcão, Fernanda Henrique, Fernando Melo, Gislaine Nascimento, Júlio Silvério, Lilian Ganzerla, Luciana Yumi Yara, Marcelo Santos, Marcelo Molina, Mayara Pacces, Murilo Thaveira, Natália Ribeiro, Rafael Francisco, Sabrina Motta, Vanderson Caires, Willian Simplícia e Yuri Martins


Oi, sou Bertold Brecht, prazer! (foto: Milton Filho)

Num período menor de seis meses tive a oportunidade de assistir a duas montagens de um mesmo texto de Bertold Brecht. A primeira foi o exercício cênico de 5º período da Fascs, Não - A trajetória de um homem que só sabia dizer sim, e a outra da qual falo nesse texto, foi feita pela formação 12 da Escola Livre de Teatro e manteve o nome original da obra, Um Homem é um Homem.

Não cabe aqui fazer comparação entre as duas montagens da obra, o que fica é o aprendizado de visualizar na prática o que já era conhecido: um texto tem realmente infinitas possibilidades a serem exploradas.

Fiéis ao teatro épico, os artistas da Formação 12 utilizaram-se de conhecidos recursos dessa estética: o ator que analisa a cena sendo interpretada, que desconstrói o personagem diante dos olhos do público e narra os acontecimentos, a sonoplastia operada do próprio palco, a luz que as vezes era operada pelos atores, o espaço cênico que saia do palco para os corredores laterais onde diversas cenas aconteceram, denunciando ao publico que aquilo era um teatro.

Toda a ambientação cenográfica e caracterização dos personagens da peça é underground, por assim dizer. Paredes pixadas, pneus, latões, roupas sujas e rasgadas, rostos sujos. Tudo isso compõe uma feiura bela no palco, pensada com cuidado.

Além disso, o espetáculo conta com composições próprias do grupo que são entoadas em coro e na maioria das vezes e dão ritmo as açôes coreografadas. Essas músicas contam com bastante percussão que aumentam ainda mais essa ambientação underground que é belíssima.

O Teatro de Brecht

Os personagens nos textos de Brecht tem na sua função social a principal característica. A que se presta a sociedade aquele sujeito? É um barbeiro? comerciante? policial? professor? estudante? Tanto que a peça conta a história de um homem comum, o estivador Gali Gay, que um dia sai de sua casa para comprar um peixe e por sua imensa dificuldade em conseguir dizer não e acaba sendo convencido a substituir o soldado Jeraiah Jip num grupo de metralhadoras.

O conflito da peça não está nas razões pessoais que o levam a nunca conseguir dizer não e sim às consequências disso. A ideia é justamente que se pense na alienação de quem diz amém a tudo sem pensar. O preço pago por Galy Gay foi alto, viu se transformar toda a sua vida em função do que outros quiseram e abandonou tudo o que tinha sem escolher por isso.

Seria cômico se não fosse trágico, mas rimos. Rimos porque o que vive Gali Gay gera reflexões acerca da nossa própria existência diante da sociedade. Melhor rir a pensar sobre quais vontades nossas são deixadas de lado, para que façamos o que não queremos.

É um humor sádico e nos entregamos a ele. E aqui o teatro épico cumpre o seu papel de evitar a catarse, pois a história de Gali Gay também pode ser contada de maneira dramática de modo a arrancar lágrimas de quem a assiste.

Além do humor da peça, dois personagens chamam a atenção pelo o que representam no conjunto e pela brilhante interpretação dos atores: a viúva Beg Bicki e o sargento Sanguinário Cinco. Ela expressa todo o peso e a importância da mulher na sociedade, é ela quem permite que as ações da história desenrolem sob o lema “pagando bem, que mal tem?”, sem ela pouca coisa aconteceria. Já ele demonstra o que há por trás de um homem supostamente grande e forte (apesar do físico ser ser um constrate a essa descrição), revela a fragilidade e vulnerabilidade de todo homem, principalmente diante do desejo carnal, não importando o seu cargo na sociedade. Quando se trata de desejo, os homens são todos iguais. Um homem é um homem.

Serviço:  A temporada segue em cartaz até o dia 5 de junho no Teatro Conchita de Morais em Santo André. Sábados às 20h30 e Domingos às 19h30. Grátis.

ATUALIZADO EM 25/05/2011: Descobri os atores trocam de personagens entre si a cada sessão.Quem faz os principais personagens no sábado, compõe o coro no domingo e vice-versa. Achei democrático. Então, só para constar, assisti num domingo e agora quero ver se consigo assistir no sábado.

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