terça-feira, 3 de maio de 2011

Savana Glacial

Antes de lerem meu humilde texto, recomendo a leitura do texto da Mariana Delfini sobre a mesma peça. Clica aqui ó. Quando crescer quero saber escrever tão bem quanto. Mas só se aprende tentando, não é mesmo?


Direção: Renato Carrera
Texto: Jô Bilac
Elenco: Andreza Bittencourt, Camila Gama, Diogo Cardoso e Renato Livera.



Amor e Morte são iguais. Ninguém sabe quando vai acontecer. Um escritor está escrevendo uma peça de teatro intitulada “A mosca no copo”. É a respeito de uma mosca presa num copo. “Mas quem fez isso com ela?”. Tudo é ficção, menos a dor. A dor sempre é real.

O que faz esse escritor faz com a sua esposa com perda de memória recente e o que faz a vizinha do 602 que visita-os tão freqüentemente? E quem é o homem sem rosto? Quem é Max? Quem está falando a verdade? Quem está mentindo?

Uma série de perguntas sem respostas, mas com milhares de possibilidades de dedução. É assim que se apresenta a premiada peça Savana Glacial que está terminando sua temporada em São Paulo. Mas como os atores conseguiram imprimir tantas possibilidades na encenação? Jô Bilac, o dramaturgo, revela no programa do espetáculo que o texto foi sendo escrito enquanto os ensaios aconteciam, sem que os atores soubessem o final. E isso explica o resultado obtido: um espetáculo de incertezas. De belas incertezas.

Indo fundo nas relações humanas, o espetáculo chega a provocar aquele mesmo sentimento de dúvida em relação à Capitu provocada pela leitura de Dom Casmurro de Machado de Assis. Não é possível afirmar com certeza nada. Nem a ordem dos fatos: tudo pode ter acontecido em ordem cronológica ou invertida, ou misturada. Não se sabe, o tempo não entra em questão aqui.

A situação de Meg é desoladora quando ela percebe que sua perda de memória recente a torna vulnerável à má fé de quem quer que seja, por isso o marido não permite que ela saia de casa. Ele está certo ou agindo de má fé? E mesmo essa percepção ela pode esquecer a qualquer momento. É a personagem com o pior dos problemas mas em dado momento ela parece ser a pessoa mais lúcida e esclarecida: tem à mão o seu caderninho que nada falta, onde está tudo anotado.

Nesse caderninho consta que a vizinha do 602 é confiável. Será? De onde veio o caderno?

Tudo surpreende, não só a trama. A sonoplastia afiada que narra em melodias as aflições da alma, as luzes que mudam o clima de tudo e de todos, pois ficam tão próximas da platéia em arquibancada, já que não há o tradicional palco italiano.Uma encenação onde parece que espiamos a vida pelo buraco da fechadura daquele apartemento,, mas não se engane: não há uma quarta parede. Os personagens encaram a platéia em diversos momentos de seu diálogo e até sentam-se ao nosso lado, nos transportando para essa Savana Glacial.

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