quinta-feira, 19 de maio de 2011

Mercadorias e Futuro

Leiam também o que a minha querida amiga Luiza Silvestrini escreveu sobre o espetáculo aqui.
Texto: José Paes de Lira
Direção: José Paes de Lira e Leandra Leal
Elenco: José Paes de Lira
O futuro em minhas mãos. Quem quer comprar?
O espetáculo que teve duas apresentações no Sesc Consolação no inicio desde mês de maio trouxe ao palco um vendedor inusitado. Seu produto é mais um daqueles que só percebemos que o a necessidade de termos quando um vendedor com boa lábia nos convence. Afinal quem precisa de futuro? Quem quer saber de futuro hoje em dia? Mas esse nem é o tom do discurso do personagem, Lirovsky. Ele vende um livro que fala de futuro segundo três profetas: João Pedra Maior, Teresa Purpurina e Benedito Heraclito. Cada um com sua particularidade pitoresca em sua história.

E por que ele faz isso? Porque é o trabalho dele! Mas só é o trabalho dele porque um dia um profeta disse que seria isso o que ele faria. Só que ele desde pequeno sempre soube fazer poesia, bastava pedir que ele dizia uma poesia. Era só lhe pedir!

Alias, falando em poesia, o texto traz importantes reflexões acerca das relações de trabalho e da arte, de forma lave, bonita e poética. O texto foi o aspecto mais agradável de todo espetáculo. De longe. O ator José Paes de Lira sabe saborear um texto muito bem, fazendo o público se inclinar para a frente de tanto envolvimento provocado pelas palavras.

Mas o grande vilão entra em cena, passa a ser percebido depois de algum tempo e se torna o segundo personagem de um monólogo: o microfone. Faz todo sentido, realmente, que Lirovsky use microfone e toda aquela aparelhagem esquisita de luz e som. No entanto, num teatro de boa acústica com um ator de boa voz, fica sendo extremamente desnecessário manter aquele microfone ligado por uma hora e meia, chega a ser ensurdecedor. Remete às mais desagradáveis lembranças de palestras cansativas e coloca a arte mais distante, menos humana.

Outra coisa a se pensar a partir da peça: onde fica aquela história de que teatro não se faz sozinho quando se é dramaturgo, ator, diretor, operador de luz e som? Fica no público (vital para existência do teatro) e na direção conjunta. Certo. Mas se o artista tem um pequeno apego a tudo que cria, pode ficar difícil acertar as doses.

De toda forma, ninguém sabe qual é a melhor dose. Só sabe do que lhe agrada ou não.

E o melhor: esse livro que promete dizer o que será do amanhã realmente existe e foi publicado pelo ator-dramaturgo-músico-vendedor. Puta sacada de marketing? Talvez, mas daí houve falha ou falta de permissão para vender o dito livro na saída do espetáculo. Porque se estivessem vendendo exemplares do livro na saída do teatro não sobraria um. Eu mesmo compraria.

Saber da existência não-ficcional do livro é uma grata surpresa. É lindo um artista conceber uma forma arte para vender outra, porque é isso é a única coisa que se sabe fazer, até de graça: arte.

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