sexta-feira, 11 de março de 2011

Memória Emotiva

Depois, ainda naquela aula, o professor começou a contar a seguinte história:

“Você é um adolescente de 14 ou 15 anos que se sente sempre preterido, seus pais preferem seus irmãos, você tira notas baixas, não tem muitos amigos, não é popular, nem nada. Enquanto todos os seus coleguinhas já estão experimentando namoricos, flertam, ficam, beijam. Você nada. Você tem baixa auto-estima, se acha feio, acha o mundo uma droga, acha a vida uma merda. Um adolescente típico, com alguns agravantes.

Certo dia, o telefone toca. Você estranha, mas atende. Do outro lado da linha a pessoa se identifica como uma admiradora secreta que sempre te amou, mas nunca teve coragem de se declarar, fala de seus encantos e tudo que chama a atenção em você. Ela diz que quer te encontrar, fala que irá te esperar ao lado da banca de jornal, na praça e se você quiser conhecê-la é só aparecer no horário marcado.
Logicamente, você desconfia porque a sua vida não tinha espaço para acontecimentos legais. Fica naquele “vou, não vou”. Por fim, decide que vai. Chega um pouco antes, observa ao longe, ainda não há ninguém.  Ninguém, ainda pensa em dar meia volta, mas no horário marcado você está ao lado da banca. Espera por cinco, dez, quinze minutos. Obviamente, trata-se de uma brincadeira de mau gosto. Atravessa a rua para ir embora e vê, na esquina do outro lado, vários colegas da sua escola sentados na calçada de um barzinho olhando para você e rindo. Você passa por eles, vai embora. Chega em casa e vai diretamente para o seu quarto. Esse espaço aqui é o quarto. Quero que vocês entrem e façam a cena.”

Fala sééério! Mó mico!NÃO VOU FAZÊ!!!
Nesse exercício, recorri à memória emotiva mais do que no anterior, do velório. Quem nunca precisou de um refúgio, um isolamento em alguns momentos da vida?

Depois do exercício, o professor comentou que quando não se interioriza a ação, alguns tentam traduzi-la como movimentação de cena. “Vocês foram capaz de passar o que sentiam, a platéia podia acreditar em vocês. Já vi gente que entra no quarto e fica gritando, atirando objetos, quebrando coisas, se preocupando em mostrar, e não em sentir ou viver a proposta da personagem”.

Olha, não sei se requisito pra fazer teatro é ter algum trauma adolescente, ou se coincidiu de todo mundo ter um na minha turma, mas todos comentaram alguma experiência de certo modo semelhante a da proposta. Talvez por isso todos tenham conseguido fazer sem confundir a ação com movimentação de cena.

E sobre a o uso da memória emotiva, o professor alertou os riscos de se usá-la. O primeiro é o mais óbvio: recuperar a emoção através da memória de um momento que a provocou não significa que você irá conseguir controlá-la. Na cena seguinte você pode precisar estar num estado diferente e pode não conseguir, afetado pelo efeito daquela memória. E o outro é simples de entender: como o tempo tudo muda, uma memória emotiva pode causar efeitos diferentes conforme sua passagem. E isso é fato, pois usei uma memória que algum tempo atrás me levaria à lágrimas, mas que hoje até me dá uma espécie de alegria, pois muita coisa mudou. 

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