segunda-feira, 7 de março de 2011

Mambo Italiano

Produção: Ronaldo Diaféria
Elenco: Claudia Mello, Antonio Petrin, Tânia Bondezan, Luciano Andrey, Lara Cordula, Jarbas Homem de Mello e Carla Fioroni
Texto: Steve Galluccio
Tradução, adaptação e direção: Clarisse Abujamra


O ideal é escrever sobre as experiências que vivemos o mais rápido possível para ser fiel aos acontecimentos. O mesmo serve para falar de peças que assisti. No entanto, por alguma razão acredito que vou conseguir falar fielmente do espetáculo Mambo Italiano quase após um mês de tê-lo assistido.

O primeiro fato importante nem remete ao espetáculo, mas ao teatro Nair Belo. No fatídico dia, alguns ingressos foram vendidos sem marcação de assento. Quem comprou com antecedência, tinha a lugar marcado. Não houve uma organização para as pessoas que tinham assento marcado entrarem antes, logo, claro que teve gente que quis criar caso por terem sentado no lugar reservado. Mas avaliem a situação: os dois clientes estavam na razão. Um por ter um ingresso sem marcação e outro por ter um ingresso com marcação.

Como isso foi resolvido? Na verdade só houve uma cliente afim de encrenca que, assim como eu, tinha ingresso com lugar marcado, vale lembrar que o teatro não estava cheio e haviam lugares ótimos ainda vazios (segunda, terceira fila). O que fiz? Cedi meu lugar para a encrequeira na fileira do ingresso dela, e peguei um lugar melhor na fileira da frente. Vai entender, não é?

Enfim, Mambo Italiano, traz ao palco o tema da homossexualidade relacionado à família. Retrata uma tradicional família italiana, dessas que se reúne para macarronadas ao domingo em família que se vê diante de uma delicada questão que até hoje é um tabu para a sociedade. O filho, já formado, trabalhando como escritor, carreira consolidada e morando fora de casa revela aos seus pais que é gay. A revelação além de conturbar seus parentes, não agrada em nada ao seu parceiro que preferia levar a vida de maneira escondida do que ter que lidar com o preconceito da sociedade, revelando claramente um preconceito de si mesmo que ele é incapaz de identificar.

E qual é a forma de se abordar tal assunto ainda tido como um tabu? Os gregos deram a fórmula mais certa há anos: a comédia serve para retratar as piores faces da sociedade, fazendo o espectador rir de uma realidade que ele assiste, acha graça e é, muitas vezes, incapaz de se enxergar naquela situação. Quando está rindo, na verdade, da própria realidade. Claro que nem tudo é apenas risadas e os momentos dramáticos têm o peso certo, e são todos brilhantemente trabalhado pelos atores. Isso dá ritmo à peça, não deixando sequer bater aquela típica vontade de olhar o relógio para fazer o calculo de há quanto tempo começou e quanto tempo ainda falta para acabar.

O final é imprevisível e agrada e desagrada ao mesmo tempo, pois desfecha a história com dois lados, um com um final feliz e um com um lado triste. Todavia, um final apenas feliz também desagradaria por não ser condizente com a realidade e um apenas triste também, pois não nos deixaria esperança de melhora. Ou seja, não há receita que agrade 100%.

Como tudo na vida o final tem prós e contras, mas nos atenta para uma realidade longe de ser a ideal. Por fim, algumas doses de clichês aparecem. E pelo amor: a história de um escritor terminar com ele resolvendo escrever a própria história como se isso fosse uma sacada genial? O final excelente para o espetáculo é uma cena antes disso.

Lembrei que teve essa senhora na platéia que, ainda antes de começar um espetáculo, interveio após o episódio em que eu dei um jeito para conciliar a situação da cadeira com lugar marcado. “Nunca se conforme, lute pelos seus direitos, pelo que é certo. Se você é jovem e não fizer isso, meu deus! Por favor, não tente sempre dar um jeitinho, faça sempre o que é certo”.

Sim, aquela senhora me condenou minha atitude conciliatória e com razão, pois as duas que brigavam por um lugar estavam no direito delas e o teatro deveria ter feito alguma coisa. Se eu quisesse fazer algo por elas, não fosse dar um jeitinho, mas enfrentar o real problema e solucioná-lo. Fosse cobrando da direção do teatro uma sugestão plausível ao invés de dar à  moça o meu lugar de forma que ficasse quieta para não estragar uma hora de lazer.

Depois de um tempo que assisti ao espetáculo, achei que a tal senhora profetizou a mensagem da peça, apesar de não haver uma mensagem declarada, ficando a critério de cada espectador entender como convier. Sabemos que não é tão simples, mas muitas questões precisam ser resolvidas. E não é para darmos um apenas jeitinho. É isso que o protagonista faz, ao enfrentar as dificuldades de sair do armário.

O espetáculo é mais do que recomendado. Em cartaz até o dia 27/03 no Teatro Nair Belo.



Um comentário:

  1. Olha, deu vontade de assistir! E concordo quando pontua que sempre tentamos dar jeitinhos pra não ver "o circo pegar fogo", ao invés de solucionarmos a situação. E assim os problemas aumentam cada vez mais!

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