segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Lixo e Purpurina

Direção: Chico Ribas
Elenco: Davi Kisnki
Texto: Caio Fernando Abreu
Adaptação: Kiko Rieser

Rachel Espírito Santo/Divulgação
Um monólogo. Qual a melhor forma de retratar a solidão de um jovem vivendo no exterior que tem passado por poucas (na verdade muitas) e boas? Assim, esse espetáculo representado num espaço cênico modesto, com capacidade para no máximo 50 pessoas nos leva ao apartamento desse personagem que não tem nome, mas encontra-se a milhares de quilômetros.

E de fato, saber o nome daquele rapaz é irrelevante, ora. Basta ouvir o que ele tem a dizer, suas divagações e relatos em forma de diário falado que até então existiu somente em papel. E por muito tempo, não foram públicos. O autor, Caio Fernando Abreu, colocou os dois textos que inspiraram esse  espetáculo no livro "Ovelhas Negras", que reunia muitos textos nunca antes publicados ou publicados em versões diferentes.

Eu conhecia os dois contos originais que foram adaptados para esse espetáculo. Lixo e Purpurina e Anotações de um amor urbano. É uma alegria é perceber que a adaptação para o palco apenas recortou, misturou e planejou as ações do personagem. A maioria das linhas mantiveram-se fiéis ao autor - nada mais justo para obras literárias que encerram-se em si.

Quando fugiu do escrito original, infelizmente, foi de maneira dispensável e gratuita, apesar de não ter estragado o texto, nem o espetáculo. Explico: o trecho em questão que me incomodou foi quando o rapaz relata que pediu uma revista à aeromoça uma revista de seu País (no original uma revista Manchete) e citou fatos atuais enquanto folheava como BBB, agressões a homossexuais na avenida paulista, etc. Isso tirou o efeito mágico de uma atmosfera de viagem ao passado que espetáculo tinha construído até então. Pouco antes ele reclamou não ter dinheiro para usar o orelhão.

Davi Kinski constrói um personagem perturbado, sensível, observador e carismático. Suas divagações no apartamento ora ecoam pelo espaço, ora chegam suavemente aos ouvidos fazendo até o público se inclinar na tentativa de não perder nenhuma palavra (da última fileira, acabei perdendo algumas). Descontrai e deixa apreensivo: seu principal dilema é continuar uma vida miserável em Londres, ou voltar ao Brasil onde a vida poderia ser melhor, mas muito mais limitada. Fala de amor, amizade, sexo, drogas, falta de dinheiro, saudade, preconceito e diversas outras questões humanas. O destaque fica por conta da cena da bad trip.

Apesar de modesto, o espaço cênico dispõe de diversos recursos de iluminação, e acomodação da platéia em arquibancada permite que todos enxerguem bem, exceto por uma inconveniente coluna que atrapalha bastante. Realismo e símbolos se misturam ao longo do espetáculo: narrações em off, projeções, slides fotográficos, luzes e sombras criam um universo que parecem pertencer ao plano dos pensamentos e sonhos.

O espetáculo ficou bom, apesar de eu ter da opinião que os textos do Caio Fernando Abreu fariam qualquer proposta teatral brilhar. Espiem só um pedacinho de Lixo e Purpurina:

"Chorei três horas, depois dormi dois dias.Parece incrível ainda estar vivo quando já não se acredita em mais nada. Olhar, quando já não se acredita no que se vê. E não sentir dor nem medo porque atingiram seu limite. E não ter nada além deste amplo vazio que poderei preencher como quiser ou deixá-lo assim, sozinho em si mesmo, completo, total. Até a próxima morte, que qualquer nascimento pressagia."
Caio Fernando Abreu.
Em Cartaz até 03/04:
Sesc Pompéia - Espaço Cênico
R. Clélia, 93 - Água Branca - Oeste. Telefone: 3871-7700.
Ingresso: R$ 3 a R$ 12.
sexta e sábado: 21h.
domingo: 19h.

Um comentário:

  1. que bom que gostou!
    quanto a acustica, acredite, não é nada facil mas estamos trabalhando para isso rs....
    abraços
    davi kinski

    ResponderExcluir

Atormenta aí!