sábado, 15 de janeiro de 2011

A Nossa Tragédia


Desculpem-me pelo que vou postar aqui. Parece fugir de toda temática do blog, mas acho que não. Quero na verdade refletir alguns aspectos dos últimos acontecimentos climáticos com as conseqüências que conhecemos.  Na verdade vou falar mais de teatro também, enfim. Leia se quiser.

foto: Fabio Motta, Agência Estado

Todos os veículos de imprensa têm usado uma palavra comum: tragédia. Não quero discutir se a palavra cabe ou não. É obvio que cabe. Mas é uma palavra usada originalmente no teatro lá da Grécia  e basta ler a Poética de Aristóteles para comprovar.

E por que estou diabos falando que a palavra tragédia vem do teatro? Porque segundo Aristóteles (conceituando pobre e simploriamente), a  tragédia é um gênero teatral que mostra os homens melhores do que são enquanto a comédia mostra os homens piores do que são. Logo, o herói da tragédia percorre sua história e os percalços de sua vida geralmente ocorrem por desafiar o destino que já estava traçado pelos deuses e nada podia ser feito a esse respeito. Pois é. Desde aquele tempo acredita-se em forças superiores que controlam o que há por aqui embaixo.

Vide o exemplo de Édipo Rei que, para salvar Tebas, descobre por um oráculo que é preciso expulsar da cidade o responsável pela morte do antigo rei.  No entanto, foi  ele próprio  quem o fez  numa viagem sem saber que se tratava do rei de Tebas. E, ainda mais, ele descobre que era filho desse rei e que havia desposado a própria mãe. Isso tudo tinha sido profetizado quando ele nasceu e seus pais trataram logo de tentar se livrar do filho pra isso não acontecer, mas um criado teve dó de matar a criança e ele cresceu num outro povoado e acabou cumprindo o seu destino.  Moral: não se subestima a vontade dos deuses.

Os gregos iam ao teatro para ver histórias como essas,  que eles já conheciam, era contadas por aí, tal qual estamos cansados (cristãos ou não) de conhecer a história de Jesus, ou tal qual já sabemos que fim dá quando chega essa época de ano com as chuvas intensas: vai alagar, vai cair barranco, vai morrer gente. Já sabemos de tudo isso, mas a nossa tragédia não está mais no teatro, ela se repete com freqüência na vida real por vontade da... força da natureza?

Aqui eu coloco talvez o dedo na ferida. Somos impotentes até para determinar as causas, pois são inúmeras e em grande parte a culpa é toda nossa (pode ser do tamanho do papel de bala que apenas uma vez você deixou voar pela janela).  Há quem diga que é melhor deixar Deus de fora dessa responsabilidade e eu concordo.  Apenas posso concluir que a palavra tragédia não tem sinônimo correspondente que chegue aos tempos contemporâneos para ser usado em seu lugar.  Pois também chega a ser catártico ver as imagens da TV e  agradecer por não ser você quem está ali. A catarse era o objetivo da tragédia grega. 

E qual é o objetivo da nossa tragédia, sendo que no tempo de Aristóteles as tragédias precisavam de dramaturgos que as escrevessem e atores que as encenassem? Eram obras  ficção.

Nossas tragédias reais não têm um motivo de ser, a não ser pelo espírito de solidariedade que surge repentinamente e – sabemos - não permanece. O motivo de ser, se há alguma força por trás disso que age de caso pensado é tão somente para lembrar-nos de deixar nosso egoísmo e ver  que a vida é muito mais do que única e exclusivamente a própria vida. E que ela – a sua vida – é tão frágil que até a água, essencial para a existirmos, pode ser devastadora.

Assim, o herói grego aprendia sua lição. E nós, quando vamos de fato aprender a nossa?

Um comentário:

  1. Aprendemos (às vezes!) com as experiências dos outros..mas geralmente, só entendemos a situação quando ocorre na própria pele. Espero que não desmorone a casa de nenhum de nós pra entendermos qual a nossa responsabilidade diante dessa situação toda, que não é apenas levar água e comida, mas por exemplo, preservar o meio ambiente, trabalhar (sempre) com a conscientização das pessoas e fazer a nossa parte. É um trabalho de formiguinhas...

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