domingo, 28 de novembro de 2010

Peões em Cena: Forja Coletivo

Volta a temporada de contemplação aos colegas de corredor que se apresentam na mostra de artes cênicas. Como fiz o mesmo trabalho no semestre anterior, tenho uma base de comparação entre o exercício cênico anterior e o atual de cada turma. É interessante acompanhar a evolução e saber que estudo e dedicação trazem resultados. Sobre como foi a minha apresentação, farei suspense e escreverei depois...



O palco está com cortina aberta enquanto o teatro recebe o público. Há um homem ao meio sentado e agachado em uma cadeira e os outros dois, ficam em pé imponentes fumando e jogando fumaça no que está ali. Ao terceiro sinal (que na verdade não ocorre), descobre-se que aquilo é uma cena de tortura. Apesar de forte, a primeira cena chega a incomodar, mas não me emociona. Afinal, já entrevistei pessoas que foram torturadas na ditadura e ter esses depoimentos verídicos de referência torna a ingrata a tarefa de qualquer ator que tentar representar algo tão cruel de forma verídica. Mas já é louvável o trabalho de não se deixar esquecer esses tempos.

No entanto, quando aparecem na segunda cena as máquinas de indústria metalúrgicas, sinto um frio na espinha e respiro profundamente. Existe uma memória no Rodrigo que naquele momento deixa de ser estudante de artes cênicas e jornalista. Voltei a viver os anos de 2003 a 2007, quando fiz Senai e trabalhei na linha de produção da indústria automotiva.

O que eu poderia esperar ao assistir uma peça cujo texto foi escrito justamente pelo grupo Forja de teatro do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC? Os atores me recordaram muitos colegas de trabalho daquele tempo, que até hoje foram os profissionais mais agradáveis e íntegros com quem já trabalhei. Meu problema naquele tempo era justamente a minha função na produção e a sensação de ser descartável e imperceptível, nunca as pessoas ao meu redor.

E a segunda cena foi justamente algo que vivi: entrega de “cartinhas de demissão” no meio do expediente. E aí revi a injustiça acontecendo: eu trabalhava direito e ganhava bem menos do que alguns que já tinham mais tempo de casa. Logo, aqueles senhores com família para cuidar custavam mais caro para a empresa, e como um mero corte de custos eram eles que recebiam a carta. Chorei feito criança.

A partir de então fui apenas um espectador, com muito orgulho. Desde que comecei a fazer teatro tem sido difícil assistir peças apenas de forma contemplativa. Ainda mais quando se trata dos colegas que invariavelmente perguntam o que achamos e tudo mais.

Não consegui comentar mas vi que foi um desafio para os seis atores encenar o texto Pesadelo, que originalmente tem 32 personagens. Enxerguei na Turma 47 uma determinação pelo fazer teatral apesar das dificuldades do processo (que foram muitas). E, apesar de ser apenas um exercício, havia algo a mais que os colocava ali. E mesmo que não se possa identificar o que era, sei que é isso o que faz valer a pena. Parabéns.

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