domingo, 4 de julho de 2010

Buraco



“Críquete, você sabe jogar? E buraco? Esse, todos sabem.” Mas esse buraco é mais em baixo. A peça Buraco faz uma releitura, adaptação, análise ou se inspira na obra de Lewis Carrol? Não sei, ainda não li Alice no País das Maravilhas e desse universo conheço apenas a versão contada pela Disney, duas vezes.

“Um chá, você aceita?” O chá foi oferecido assim que retirei meu ingresso, mas não eram seis horas, logo, eu estava atrasado. E também o coelho que usa walk-talkie.

E nesse clima “Nonsense” como consta no programa da peça, o espetáculo é segmentado sem haver uma narrativa, mas não pense em uma estrutura de esquetes, não é isso. Há um tênue fio condutor daquele universo, mas ou você já conhece a história, ou vai apenas vislumbrar fragmentos em cenas bem construídas, onde a proximidade dos personagens com o público torna o espetáculo envolvente. Pois o maior problema de peças segmentadas é tornarem-se enfadonhas e longas. Aqui isso não aconteceu. Mesmo com uma duração de 90 minutos, o tempo voou.

Quanto aos atores foi incrível a capacidade de jogar com o público em vários momentos do espetáculo. Eu acredito que essa é uma das coisas mais difíceis de fazer, ainda mais na estréia, onde não dá nem pra ter uma idéia de como o público vai reagir. E esse aspecto foi bem desenvolvido.

Das várias personagens,  é possível compreender o que todas elas fazem e qual a proposta. Algumas foram mais bem desenvolvidas que outras, sem sombra de dúvidas. Há o coelho, a lagarta, o gato, o chapeleiro, a rainha, o rei e a cozinheira (que a Disney jamais mencionou nas duas versões).

Até o próprio autor é representado em alguns momentos, dialogando com aquele universo. O que não me agradou muito não. Tira um pouco da fantasia, faz Alice acordar do sonho e Lewis Carrol parecer um pedófilo enrustido.

Existe uma também um caráter analítico da obra que tenta desvendar algumas entrelinhas, faces ocultas e subconscientes das personagens. Afinal, por que todos obedecem a rainha?

Visualmente, um espetáculo a parte é proporcionado aos olhos pelas luzes utilizadas, cenário e recursos estéticos visuais que sustentam perfeitamente a idéia de estar em outro mundo dentro da sala.

E eis que a história de Alice confunde-se com a de a história de Lili Braun, de Chico Buarque e Edu Lobo, pois o elenco também interpreta várias canções acompanhadas de piano tocado ao vivo. Essa foi única música que reconheci a autoria, as demais ou foram compostas especificamente para a peça ou eu simplesmente não as conheço.

Apesar de ter um começo confuso e mal resolvido (ou fiquei com essa impressão pelo primeiro impacto de estranhamento), foi um belo trabalho. Não sei, fui orientado no início a fechar os olhos, pois somente assim eu poderia ver  e não o fiz. Será que foi isso?

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