sábado, 10 de julho de 2010

A arte de fazer técnica ou de encher garrafas d'água

“Quem quer fazer técnica?” É o que perguntam para a gente quando se aproximam as estréias da mostra de artes cênicas ou um espetáculo de formatura. E já existe uma estratégia muito bem traçada: para você se formar, é preciso de algumas horas de estágio. Todo espetáculo precisa de gente na bilheteria, iluminação, sonorização, contras-regras e outras coisas para acontecer, fazer isso é fazer técnica. E fazer técnica conta como horas de estágio. Brilhante hein?

Então, cedo ou tarde você precisa se empenhar em fazer técnica para seus colegas, sabendo que amanhã é você quem vai precisar e assim as coisas caminham harmoniosamente, retirando os problemas que acontecem de gente que se compromete e não aparece. Por isso você sempre pega para sua técnica mais nomes do que é realmente necessário na lista. É o que parece ser mais prudente e todo mundo faz. Outra estratégia é pegar a namoradinha de um ator da turma que é de outra sala (não no sentido talarico da palavra). Essas, geralmente não faltam um dia sequer e ficam o máximo que podem nos serviços mais próximos das coxias e camarins.

Enfim, minha experiência com técnica se deu antes do que esperava. Conforme eu tinha acertado com meu colega, eu faria técnica nos dois últimos dias do espetáculo “Espírito de Porco”. Mas por outros compromissos, eu estava na Fundação no domingo da estréia.

- Entra e já vai vendo o ensaio, daqui a pouco a gente explica o que você vai fazer

- Mas eu não estou na técnica de hoje.

De olhos arregalados, preocupado. Eu vi pânico em seus olhos.

- Está sim.

- Tô? Devo ter me confundido! Tudo bem! Já entro – Como se não tivesse mais nada a fazer.

E foi assim que eu assisti o primeiro ensaio geral da minha vida, para o meu desespero. O diretor interrompia a todo o momento, a luz ainda não estava certa, parecia que nada estava pronto, mas ninguém estava em pânico. Apenas eu, mas disfarcei bem, afinal eu faço teatro.

Então cuidei de encher garrafas d’ água, de encher garrafas d’ água e de encher garrafas d’ água. Abrimos a bilheteria, e os ingressos se esgotaram. “Pessoal da técnica só assiste ao espetáculo se sobrarem ingressos, nada de reservar”, disse enfático o diretor. Sim, eu não assisti ao espetáculo.

No fim de semana seguinte, recebi as desculpas por ter sido solicitado sem realmente ter me comprometido, agradeci ver que eu ainda tinha alguma sanidade mental, continuei trabalhando nas mesmas funções e até mexi um pouco na mesa de som durante o ensaio. E consegui assistir ao espetáculo duas vezes, porque ficou muito bom e não lotou nas demais apresentações, mas manteve um bom público.

E confesso que é muito gratificante ouvir, ao final do espetáculo, os atores agradecendo a platéia e ao “pessoal da técnica sem o qual nada disso seria possível”. Ou seja, trate bem quem serve a sua água, para que continue servindo somente água, sem nenhum aditivo.

Um comentário:

  1. Encher garrafas deveria ser uma atividade mais respeitada! O Warde apóia!

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