segunda-feira, 29 de março de 2010

Inquietação

Acabo de concluir uma leitura que me deixou inquieto, dando passos para cá e para lá resolvi sentar e tentar  por os pensamentos em ordem. Sinto como se fosse um pré-adolescente bobo.

O que eu li foi a peça Cavaleiros de Aristófanes que data de 424 a.C. Fiquei desconcertado de reflexões e epifanias que me passaram pela cabeça.

Em um resumo grosseiro a peça mostra como o povo se deixa iludir por governantes sacanas que abusam do poder pensando no bem próprio, enquanto a massa acha que está segura nas mãos desse governante. E o ciclo é vicioso.

Simplesmente um texto escrito e representado há mais de dois mil anos reflete o quanto a humanidade enquanto sociedade não evoluiu. Ok, não precisa muito para enxergar isso, acho que até já sabia, mas agora vamos aos pormenores do meu umbigo:

Sou (por enquanto) jovem. E jovem é bicho besta que acha que vai mudar o mundo. Daí eu fiz jornalismo. E olha, se tem alguém que não tem capacidade alguma de mudar o mundo hoje essa pessoa é o jornalista. E a culpa nem cai por falta de ideais desse profissional: há todo um sistema mais complexo. Resumo grotesco desse sistema: jornalistas escrevem e a grande maioria não lê. Se não lê, não vende. Quem lê então? Sobre o que ele quer ler? O agrademos então. E paguemos mal ao jornalista. Porque dinheiro é poder e jornalista não pode. “Deus não dá asas para cobra”, minha irmã diz muito isso.

Uma amiga ainda me disse “ator ganha menos ainda do que jornalista”. Então presumo que não devo estar buscando dinheiro com a profissão, estou buscando outra coisa: voz. Mas não foi essa a educação que eu recebi! Meus pais deram um duro danado para conseguirem mudar de vida, graças a eles eu não sei o que é passar fome nem vontade.

Eu to sentado aqui, e eles estão trabalhando agora. Me educaram de forma exemplar! Então, por que eu, com tudo entregue em mãos, empregado em uma multinacional aos 15 anos, larguei tudo aos 20 em busca de estágios em comunicação? Consegui estágios também em multinacionais que em seus ciclos conservadores efetivam apenas estagiários de engenharia e deixam aqueles que escrevem apenas passarem pela experiência até que terminem suas graduações.

Falta educação. É repetitivo falar nisso, mas é a mais pura verdade. Me faltou educação para que eu escolhesse uma carreira segura? Não faltou! Inclusive, eu ainda quero um emprego de assessor de imprensa para ganhar dinheiro. Que eu seja paradoxal, agora, então!

- Então, mas ator? Desculpa, mas você não acha que vai mudar o mundo assim vai? É uma das profissões mais usada pela política do pão e circo. Sempre foi assim.

Não acho que vou mudar o mundo. Mas o próprio Aristófanes usou o teatro para criticar a sociedade em que vivia. Criticou um político contemporâneo a sua época o qual nenhum ator quis representar e que nenhum artista quis confeccionar a máscara. O que levou o próprio dramaturgo ao palco para dar a cara à tapa.

- É. E em mais de dois mil anos está tudo igual. Com sorte, você viverá 80.

Talvez, mas considerando que eu já não apresento comportamentos padrões, ou devo viver muito mais, ou muito menos. Espero que mais.

São incríveis essas inquietações e pensamentos que não me levam a lugar algum, mas fico grato por eles surgirem. Esse poder de inquietar ninguém nega que o Teatro tem e é justamente isso que eu procuro: inquietar, atormentar. Não é pedir muito. E acho que sou capaz.

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