quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Reta Final

Pois é.

Faltam alguns meses, precisamente nove, para eu me formar no curso de arte dramática e ser considerado um ator profissional. Estou fazendo uma versão offline do atormentado. Não tem jeito: com trabalho e estudos o tempo que me sobra para escrever impressões é no transporte público. E se ando de transporte público, é claro, não tenho um desses aí embaixo.

Meu aniversário é no ano que vem, mas o natal tá quase aí. Fica a dica.
Nesses quase três anos, aprendi que o meu processo de aprendizado se dá assim, pelo registro. Simplesmente por que me força a refletir e ator precisa pensar. Desculpa pra quem lê o blog, mas escrevê-lo é mais útil pra mim do que pra você, por isso nem tenho crises
quanto à periodicidade de atualizações.

Que fim levamos?

De uma turma com 18 alunos, restaram 4. Isso mesmo, quatro. Tipo um BBB, só que sem o 1 milhão de reais e votação do público. Geralmente quem saiu, pediu pra sair. Outros foram gentilmente convidados a se retirar.

Ops, foto errada.

Foto correta, tirada em 2010.

É lindo lidar com um grupo pequeno. E mais lindo ainda porque todo mundo trabalha e contribuiu com tudo que envolve o dia-a-dia de fazer teatro. Trabalho nunca falta.

A gente tá se esforçando muito  na produção da nossa montagem de formatura, tendo algumas ideias novas e vocês podem acompanhar tudinho aqui. Até porque, lá teremos atualizações muito mais frequentes e de textos muito mais curtos.

Corre pra lá!

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Pensamentos Soltos - Ser Ator

Acho que coisa de uns dois anos atrás eu ainda tinha outra ideia sobre o que ser ator é. O estudo e a prática do Teatro acabaram me dando outro conceito, mas de forma ainda bem indefinida.  Até mesmo o blog, que nascia em conjunto com esse estudo tinha outras características, partilhando cada vírgula, cada momento como uma vitrine de "olha como é legal o que eu estou fazendo, vou ser, ooooh! Ator".

É isso, entrei na busca da profissionalização em Teatro por um desejo franco do meu ego. Ser ator tinha alguma áurea de nobreza que diferenciava, no meu imaginário, o ator de outros míseros mortais. Hoje não enxergo mais assim.

O ator rala  para conseguir contar uma história para outras pessoas. Sou ator em processo formação acadêmica (pois ator nunca se forma por completo), e pra isso preciso acordar 5h da manhã e trabalhar num escritório de Segunda à Sexta. E mesmo que um dia eu trabalhe só com o teatro, não vai dar pra acordar 2h da tarde, pois duas horas de espetáculo levam meses (ou anos) para ficarem prontas.

Mais importante do que os aplausos, são as dificuldades enfrentadas para conseguir contar bem a história de um personagem. Isso você aprende conforme o correr da carruagem, se estiver sendo fácil, alguma coisa está errada. Você pode enxergar as dificuldades de outra forma com a experiência, mas elas vão estar ali, te desafiando.

Conforto não combina com o ofício de ator. Não falo que um ator não possa ser rico e ter comodidade, mas ele precisa sim, estar incomodado com alguma coisa - que seja a falta de uma massagem no ego - que o mova a estar ali no palco fazendo algo verdadeiro.

Nesses quase três anos, vi que a responsabilidade que envolve a arte não permite um ego inflamado, latejante por atenção. Comparação besta mais serve: encanta mais uma criança fazendo manha, ou uma criança falando sozinha, brincando verdadeiramente com sua imaginação, seu faz-de-conta?

E agora vejo que sigo um caminho sem volta: o teatro se enraizou em mim, por um sem-número de motivos que não vou conseguir explicar em uma vida.

Acho que esses pensamentos vieram depois de uma primeira apresentação emblemática fora da escola, no meu último aniversário.


segunda-feira, 30 de julho de 2012

Registro Rápido

Olá. Sim, você não está tendo uma ilusão. O Blog está voltando a ser atualizado e sem nenhuma promessa de retomar com atualizações diárias ou algo parecido. Mas eu percebi que me faz falta o registro de algumas passagens da minha vida de ator/espectador/ser humano. Estava exigindo de mim um rigor muito elevado de qualidade pra algo que é apenas um blog, afinal de contas.

Claro, qualquer erro grotesco e vírgulas indevidas, favor avisar, porque, eu, adoro errar, vírgulas (contém ironia e erros propositais aqui). Mas nunca serei irresponsável (juridicamente) ao escrever. E desculpem o franco egoísmo, mas eu faço o blog mais pra mim do que qualquer outra coisa. Só publico porque na minha cabeça acho que talvez alguém possa se interessar pelo que penso, mas pela quantidade de visitas, são poucos.

Começo uma nova fase no blog, e acho que uma nova fase na carreira de ator (assunto pra outro post que não garanto escrever). Vamos logo ao que queria dizer.

Elas não gostam de apanhar
 
Ontem, assisti um recital com Denise Fraga lendo textos de Nelson Rodrigues no Auditório do Ibirapuera. Denise teve que segurar uma bomba, pois o recital foi apresentado nos dois dias anteriores (e antes disso ensaiado) em companhia de ninguém menos que Cleyde Yáconis. Infelizmente a atriz não pode comparecer, o que não é nenhum absurdo considerando a idade e o fato de ela ter se apresentado gripada nos dois dias anteriores.

Apesar de nervosa, Denise mostrou a grande atriz que é encarando a leitura dos textos sozinha, diante de uma plateia de certo modo frustrada por ter perdido a chance de ver a lenda viva que é Cleyde Yácones.

Os textos do Nelson, incríveis, ganharam brilho nas entonações precisas para as falas das personagens. A atriz foi muito ágil resolvendo as pequenas engasgadas e com muita calma retomava a leitura no início da sentença, com louvor.

Além disso, projeções belíssimas compunham um cenário preciso que se relacionavam com os textos e ajudavam a despertar a imaginação.

Hoje

Sobre o trabalho da Denise Fraga nas telonas, assisti recentemente a estreia do filme “Hoje” no Festival Latino-Americano de Cinema e fiquei encantado, é um deslumbre. A pena é que esse filme estreia em circuito comercial apenas no ano que vem. Denise é uma atriz versátil, que consegue transitar entre gêneros e linguagens distintas, tem tempo ótimo de comédia, diga-se de passagem, e, no entanto sua interpretação nesse filme é capaz de verter lágrimas emocionadas no público.

Enfim, Denise Fraga é daquelas pessoas que eu gostaria de dizer que é minha amiga, só que não posso ainda, questão de tempo.

E por hoje é isso.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Como me tornei um monitor

Em um curso técnico com três anos e seis meses de duração, é de se esperar que a carga de estágio a ser cumprida seja bem comprida (desculpem o trocadilho, não resisti) uma vez que existe uma relação proporcional que aumenta a carga de estágio conforme o tamanho da grade curricular.

Esse estágio é diferente do que acontece em outras áreas, pois tem a carga total de horas divididas em diferentes modalidades com um mínimo de horas determinadas para cada uma. Ou seja, para cumprir todo o estágio você precisa fazer algumas horas de apoio técnico (bilheteria, contra-regragem, operar luz e som, etc.), assistir a uma certa quantidade mínima de espetáculos e escrever relatórios, ter horas de vivência acompanhando processos de companhias profissionais, entre outras.

Também temos que cumprir horas sendo monitores.
Quase isso. Fazer monitoria é assistir aula de outra turma.
Ah, monitoria! Temos dois bons motivos para fazer monitoria: a oportunidade de assistir aulas sem a mínima preocupação de provas, trabalhos ou pesquisas e a contemplação do sofrimento alheio. (Fazer monitoria é a chance de mostrar nosso sadismo.) E nesse semestre ganhamos mais um bom motivo: vale nota.

Claro que escolher matéria e a turma para realizar a monitoria não é algo aleatório. É interessante pensar com carinho, pois a monitoria é uma oportunidade de aprender. Após a escolhida a matéria, é preciso que o professor concorde e aceite ter o monitor em sala.

Depois de algumas negociações com a professora, que me deu aulas de interpretação no 2º semestre, e o coordenador da escola, eu e meu colega (Andre Félix) fomos aceitos para sermos os monitores de terças-feiras nas aulas de interpretação da turma 51.

Será a primeira experiência de observar o processo de uma turma, e não apenas para ver resultado final. Já no primeiro dia de monitoria, fui levado a refletir sobre o processo atual do meu 5º período e também de processos passados (dificuldades, escolhas, caminhos possíveis, etc.).

É observando as dificuldades de outros alunos que você identifica as suas dificuldades do passado e enxerga com mais clareza quais foram as soluções que você buscou para superá-las; identifica as ferramentas que você construiu, enxerga novas alternativas para utilizar no seu processo investigativo e criativo. É um outro jeito de aprender.

Também é gratificante a oportunidade de colaborar com outros colegas, relatando um pouco da nossa experiência, dando opiniões e impressões. Tornar-se um monitor acabou sendo um bom motivo em si.

sexta-feira, 2 de março de 2012

De frente com as personagens

Quase isso
O nosso estudo inicial para o exercício cênico (eufemismo para peça) do semestre baseia-se num método que a Célia Luca, professora da escola, conheceu quando foi aluna de Eugênio Kusnet. Ela participa da nossa aula às quarta-feiras e conduz o exercício de entrevista com os personagens.

A cada semana, temos como lição de casa construir a gênese de algumas (duas ou três, geralmente) personagens. Na aula seguinte é realizado um sorteio para determinar quem irá interpretar a personagem na entrevista, essa pessoa então sai da sala, prepara-se tomando o tempo que achar necessário, e entra. A partir desse momento o ator ou a atriz não poderá desconstruir a personagem até que a entrevista termine (não é estabelecida uma duração, claro, dentro de nossas limitações como o horário do último ônibus).

Na sequência, as demais pessoas do grupo começam a fazer perguntas para conhecer melhor aquela pessoa (assim devemos encarar a personagem, alguém desconhecido). Perguntando coisas que sabemos pela leitura e análise do texto e também coisas desconhecidas que o ator deverá ser rápido para pensar numa solução caso não tenha pensado em determinado aspecto da personagem  quando construiu a gênese.

Claro que com o meu pé quente (ironia mode on), fui o sorteado da última aula. Aliás, não fiquei nervoso com a situação porque também é preciso lembrar de que não há certo ou errado nesse exercício (e também porque já tinha feito isso no núcleo de pesquisa que participei no ano passado). Essa situação deve ser encarada como uma experiência para descobrir coisas que funcionam e justificam as ações da personagem, as relações que ela mantém, bem como descobrir o que não funciona, foge à lógica ou o sentido do texto.

Sentá lá, cláudia.
O engraçado da minha entrevista foi que a personagem em questão era uma mulher, pois o sorteio de ator  não distingue gênero. Tive certa dificuldade para conter o riso vendo a cara dos colegas rindo da minha interpretação feminina em alguns momentos, mas serviu para acharmos aspectos muito interessantes para a personagem que irão ajudar futuramente o ator ou a atriz que realmente irá interpretá-la.

Apenas para dar um exemplo, a personagem começou com um ato falho, dizendo que sobrenome dela era Rodrigues ao invés de Fernandes. A saída encontrada por ela foi dizer com timidez que já sonha com o seu nome de casada. E essa é justamente uma personagem que integra a trama romântica da história.

No fim das contas, é gostoso de se fazer isso. Eu pelo menos sinto-me uma criança descobrindo um mundo de novidades desconhecidas do meu mundo, há um prazer em sentir também que você encontrou saídas para responder perguntas inesperadas, nada explica a sensação de precisar de um tempo para sair da personagem devido ao modo que a entrevista te joga bem fundo pra dentro dela.

E para além de se aprofundar na compreensão das personagens, enquanto grupo de trabalho passamos a conhecer e entender melhor como se dão as relações sociais no contexto da peça, os conflitos entre as pessoas, e fazemos descobertas que nos darão subsídios para, em junho deste ano, atuarmos com segurança em nosso derradeiro "exercício cênico".

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

E foi dada a largada

Deixei esse post para ser publicado propositalmente depois do carnaval, quando se dizem que o ano verdadeiramente começa, mas comigo não foi bem assim não.

Fora as aulas começadas desde o dia 05 deste mês, durante o mês de janeiro trabalhei - e muito - no emprego que paga as minhas contas e suga um pouco do meu cérebro, do meu sono e do meu sossego. Nessas horas tem que ter força e lembrar que grandes nomes do teatro não fizeram só teatro na vida. Tchekhov (que já escrevo sem precisar consultar a grafia correta! \o/) era médico, Stanislavski (idem! \o/) cuidava de uma empresa, e por aí vai.

As aulas já engrenaram uma porção de tarefas. Temos texto do exercício desse semestre definido será "A torre em concurso" de Joaquim Manuel de Macedo (comédia, oh yes!*) e estamos fazendo a pesquisa dos personagens de forma coletiva, num processo 'herdado' do Eugênio Kusnet que consiste em fazer entrevistas com personagens para ajudar no processo de criação de gênese.

Fora isso, dentro das matérias complementares ao curso que ajudam na formação não só de ator, mas de artista, de realizador, estamos tendo aulas de Produção Cultural com uma carga expressiva de trabalhos, leituras e discussões. Começamos na semana passada com discussões sobre criatividade, com a leitura deste texto que discorre sobre aprendizado através experiência (o autor diferencia experiencia e trabalho, vale a leitura) e também o livro "Um Toc na Cuca" de Roger Von Oech.

Por fim, a razão do meu último semestre ter sido tão pouco documentado aqui, além do trabalho, foi o próprio semestre em si que precisou de um empenho maior durante o processo de criação coletiva (criamos do zero uma peça) e a porção de outras coisas que assumo pra fazer. Durante esse semestre tentarei discorrer sobre alguns episódios e dificuldades do semestre anterior. Veremos.

*Sei dos desafios que representar uma comédia trazem, estou ansioso e receoso.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Luis Antonio Gabriela


Direção: Nelson Baskerville
Elenco: Marcos Felipe, Sandra Modesto, Verônica Gentilin, Lucas Beda, Virginia Iglesias e Day Porto


A experiência de assistir Luis Antonio Gabriela começou com frustração. Na primeira ida ao Teatro não consegui comprar a entrada, pois os ingressos já estavam esgotados mesmo a bilheteria abrindo só duas horas antes do espetáculo. O remédio foi retornar na semana seguinte com mais antecedência e constatar que essa frustração seria a única.

É uma peça que termina em aplausos incessantes e emociona o público pela beleza e pela história real. É a realidade que torna tudo ainda mais belo e também mais dolorido. Ainda mais pelo fato de não ser o relato de um terceiro, mas do próprio diretor Nelson Baskerville que compartilha com muita coragem uma história familiar que mexe em feridas profundamente abertas, de cicatrização difícil.

Luis Antonio, Tonio ou Bolota, que mais tarde tornou-se Gabriela, é o irmão 8 anos mais velho de Nelson que abusava sexualmente dele. Porque “nasceu no corpo errado” ele teve uma série de problemas por causa do preconceito para viver na sociedade tal como conhecemos e acabou saindo casa. Depois de um tempo, sai do país e a família vê-se livre de um problema e nem procuram mais saber dele.

Por mero acaso, passados quase 30 anos, a família volta a ter notícias. Descobrem que Luis Antonio agora é Gabriela, morava em Bilbao, era viciada em cocaína e a AIDS era a menor de suas doenças. Mesmo assim, Nelson nunca retornou a encontrá-la e nem ao seu enterro foi. “Fiz esse espetáculo”, conta o diretor no programa da peça.

A partir de memórias e relatos, a peça vai narrar a trajetória então de Luis Antonio do seu nascimento até a morte. Engana-se quem pensar que é uma peça só de temática LGBT por contar a história de um travesti. É universal, humana, expõe questões sociais, familiares, existenciais e muitas outras.

Sem usar de realismo na forma de contar essa história, com uma estética que mistura elementos surreais e Brecht (quando os atores se apresentam e contam qual papel irão representar, por exemplo) para fazer o que tem se chamado de teatro documentário ou documentário cênico que não passa nem perto da forma cinematográfica que conhecemos de documentário.

A documentação é a base da dramaturgia, mas não sua forma final. A atuação de todo elenco é impecável, de dispensar comentários e não chega texto a respeito que faça jus à magnitude desse espetáculo. O conselho amigo é: assistam enquanto ainda dá tempo até o dia 26/02 na Funarte.

Funarte
Endereço: Alameda Nothmann, 1058
De quinta a domingo às 21h30. A bilheteria abre duas horas antes. R$ 5,00
Local da apresentação: Sala Carlos Miranda. De 12/01 a 26/02.